Fortalecimento da cadeia do cacau

Câmara de Comércio da França visita produtores de cacau da Bahia

Na Costa do Cacau há diversas organizações dedicadas a fortalecer a cadeia produtiva do cacau. São instituições que atuam com tecnologia, geração de conhecimento para melhorar a produção e a conservação do meio ambiente, além de oferecer formação às comunidades locais – inclusive com o fomento de crédito financeiro. Dedicado a esse território há mais de dez anos, nosso instituto tem trabalhado em parcerias com esses atores locais para fomentar redes, influenciar políticas públicas e gerar conhecimento.

Viabilidade da cabruca

No intuito de apoiar agricultores pequenos, médios e familiares a ter um maior retorno financeiro a partir do cultivo do cacau cabruca, produção com espécies nativas da Mata Atlântica, investimos na produção de conhecimento. Em 2019, entregamos dois estudos: viabilidade econômica da cabruca e modelagens de Sistema Agroflorestal (SAF) com Cacau. A pesquisa demonstrou que a diversificação de atividades em uma propriedade – como adensamento de cacaueiros, manejo de sombra, cacau fino, certificação orgânica e consórcio de outras culturas como o açaí – alavanca resultados e melhora a renda dos produtores.

MapBiomas Cacau

Com o apoio de outro projeto apoiado por nosso Instituto, o MapBiomas, iniciamos a construção de um grande mapa de identificação e distribuição da cabruca nos municípios do sul do estado baiano, criando um marco zero de monitoramento dessas áreas. A partir desses dados, com previsão de publicação no segundo semestre de 2020, será possível identificar cabrucas nativas (com Mata Atlântica original) e exóticas (com florestas que surgiram após um período de desmatamento na região), áreas de pastagem e degradadas, e florestas. Com isso, esperamos contribuir com a expansão da cacauicultura de forma sustentável.

Cacau de qualidade

Geração de renda a partir do cacau orgânico em Dois Riachões recebe destaque na imprensa

A produção do cacau de qualidade é uma grande oportunidade para os produtores da região, pois aumenta a renda e garante a viabilidade econômica do sistema cabruca. Esse tem sido o foco de nossa atuação para ampliar a oferta e a demanda, bem como criar padrões de qualidade e influenciar políticas públicas. O assentamento Dois Riachões, onde vivem e trabalham 140 famílias de agricultores, se tornou um case nesse sentido. Uma arroba de amêndoa de cacau vendida a R$ 140 passou para R$ 270 poucos anos depois de um trabalho focado na produção de cacau de qualidade, de forma sustentável e orgânica para marcas de chocolates finos. O incremento de mais de 90% no preço melhorou a qualidade de vida dos produtores e resgatou sua autoestima. 

Fazemos parte de um movimento crescente na região para fortalecer essa cadeia produtiva e revitalizar a ‘cabruca’, o cacau da Mata Atlântica. O cacau e o chocolate produzidos com respeito ao meio ambiente podem impulsionar o desenvolvimento do sul da Bahia. Nossa intenção sempre foi a de fomentar políticas públicas de incentivo ao setor, e envolver todas as lideranças e instituições locais.

Ricardo Gomes, gerente do programa Desenvolvimento Territorial do Sul da Bahia.

Centro de Inovação do Cacau (CIC)

Em 2019, o trabalho em parceria com o CIC, um laboratório com tecnologia de ponta que realiza análises físicas, químicas e sensoriais da amêndoa do cacau e fornece capacitação e consultoria para produtores, pequenos fabricantes de chocolates e indústria moageira, rendeu diversos frutos. O Brasil passou a fazer parte da seleta lista de exportadores de cacau  no da Organização Internacional do Cacau (ICCO), por exemplo. O centro também atendeu 3.200 pequenos produtores e realizou o Concurso Nacional de Cacau de Qualidade, com a segunda edição já prevista para 2020.

O CIC já analisou, desde sua criação em 2017, em Ilhéus, cerca de 6 mil lotes de amêndoas (cerca de 2 mil por ano). Para incentivar o investimento na qualidade do cacau, esse trabalho não é cobrado para os pequenos agricultores da região. O assentamento Dois Riachões, por exemplo, teve as amêndoas analisadas pelo CIC, para aprimorar a produção e chegar ao ideal de qualidade. Isso os levou a obter o reconhecimento pelo selo IG – Indicação Geográfica, outra ferramenta importante nessa cadeia de incentivo ao cacau de qualidade.

Selo IG – Indicação Geográfica

Possibilitar que compradores de amêndoas de cacau tenham acesso às análises feitas pelo CIC, além de certificar a origem georreferenciada dos produtos. Com esse objetivo, unimos esforços com CIC e IG para criar um sistema de rastreabilidade com QR Code desenvolvido especificamente para o cacau do sul da Bahia. Desde 2018, o IG já certificou 53 toneladas de cacau na região de acordo com os seguintes critérios: análise física e química das amêndoas (fermentação); sistema de produção (tem que ser cabruca); geografia (região cacaueira); e cumprir legislação trabalhista e ambiental.

Outro passo importante dado pelo IG foi o fechamento do convênio com o governo da Bahia, via Secretaria de Desenvolvimento Rural/CAR, para a execução do projeto Alianças Produtivas. Abrangendo em torno de 300 agricultores familiares, com produção de cerca de 150 toneladas/ano, a proposta oferece apoio às associações e cooperativas, tendo, entre outras coisas, foco na relação comercial delas com compradores do setor privado.

Para que a produção de cacau traga o retorno esperado dependendo apenas do mercado commodity é necessário que se tenha uma alta produtividade e ainda assim é um modelo de produção bastante sensível a oscilações de preço e produtividade, o que é uma realidade no cultivo do cacau. É preciso diversificar sua receita, seja via mercado de qualidade, agregação de valor via certificações, comercialização dos subprodutos do cacau, ou diversificação via outros cultivos através de sistemas agroflorestais.

Grazielle Cardoso, responsável pelos estudos no Arapyaú.

Consórcio de Produtores

O Consórcio CBE (Cacau Bahia Especial), que contou com apoio do Arapyaú para sua formação em 2018, reúne médios e grandes cacauicultores com a missão de aumentar a reputação do cacau baiano e qualificar o modelo de negócio da região. Hoje, dez produtores fazem parte dessa rede e a expectativa é que ela acesse novos mercados de qualidade, no âmbito nacional e internacional, e também sirva de incentivo para que outros produtores se unam com o mesmo propósito. Em 2019, o consórcio somou diversas conquistas: a análise de mercados, em parceria com o Sebrae, em busca de novas oportunidades comerciais; a avaliação de possíveis linhas de crédito inovadoras; definição do modelo de governança; e realização da primeira venda coletiva para uma chocolateria brasileira.

Por três gerações produzimos cacau commodity. Agora melhoramos a qualidade e fornecemos para o mercado de chocolate. Integramos um consórcio que busca mercados premium no Brasil e no exterior. Levamos não só o nosso cacau, mas também a nossa história e a Mata Atlântica.

Lucas Arléo, produtor da Fazenda Santa Rita, em Ilhéus.