Arapyaú aproxima empresas e produtores para impulsionar agricultura regenerativa

A transformação dos sistemas alimentares exige repensar não apenas como os alimentos são produzidos, mas também como são comercializados e consumidos. E o desafio é construir e incentivar modelos capazes de manter a competitividade dos negócios, gerar renda para os produtores e reduzir os impactos ambientais da atividade. Para isso, mudanças nas práticas agrícolas precisam vir acompanhadas de alterações nas relações entre quem produz, processa e compra comida.

A dimensão desse desafio contrasta com o volume de recursos destinados à sua solução. Segundo análise da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicada em novembro de 2025, pecuária, pesca, silvicultura e produção agrícola receberam apenas 4% do financiamento total para o desenvolvimento relacionado ao clima em 2023. No mesmo levantamento, a organização destaca que os sistemas agroalimentares contribuem para quase 30% das emissões globais de gases de efeito estufa. O dado evidencia a distância entre a contribuição do setor para as emissões e os recursos direcionados à sua transformação.

Esse foi o pano de fundo da reunião anual da Global Alliance for the Future of Food, coalizão que reúne fundações filantrópicas comprometidas com a transformação dos sistemas alimentares globais em modelos mais sustentáveis e justos. Realizado de 5 a 8 de outubro de 2026, em Cuernavaca, no México, o encontro promoveu a troca de experiências entre organizações sobre como colaborar para acelerar a transição para a agricultura regenerativa.

O Instituto Arapyaú compartilhou os aprendizados de sua atuação na cadeia do cacau. O objetivo agora é levar parte desse conhecimento a outras cadeias produtivas, como as do açaí e da mandioca, com uma abordagem centrada na articulação entre empresas, produtores e organizações que possam contribuir para o desenvolvimento dos negócios. 

O setor privado tem um papel estratégico nesse processo por entender os mercados, as demandas dos consumidores e as condições necessárias para ampliar negócios. A proposta do Arapyaú é aproximar esse conhecimento das necessidades de produtores, organizações locais e outros atores, para que práticas regenerativas encontrem compradores e gerem resultados ao longo da cadeia produtiva.

“Nosso grande diferencial é conectar os diversos públicos”, afirma Vinicius Ahmar, diretor programático do Arapyaú. O instituto busca identificar interesses comuns e transformar oportunidades em iniciativas capazes de combinar viabilidade econômica, geração de renda e conservação ambiental.

O que o cacau ensinou

A experiência do Arapyaú com a cacauicultura mostra que a transição para modelos produtivos mais sustentáveis depende de mudanças em diferentes etapas da cadeia. Não basta orientar agricultores a adotar novas práticas se eles não têm acesso a crédito, assistência técnica adequada ou compradores dispostos a reconhecer o valor do produto.

Ricardo Gomes, também diretor de programas do Arapyaú, destaca três desafios: ampliar o acesso a financiamento e a serviços de assistência técnica de qualidade; diversificar as formas de comercialização; e fortalecer a organização coletiva dos produtores.

No Brasil, cerca de 70% dos produtores de cacau são agricultores familiares, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do Ministério da Agricultura e Pecuária. Eles cultivam o fruto em consórcio com outras espécies, como cupuaçu e banana, em sistemas agroflorestais que permitem a produção de um cacau de maior qualidade, a obtenção de certificações orgânicas e a comercialização de derivados de maior valor agregado.

Ao combinar culturas agrícolas com árvores, os sistemas agroflorestais contribuem para a manutenção da vegetação nativa e para a proteção dos recursos hídricos e da biodiversidade. Mas para que sejam mantidos ao longo do tempo, precisam oferecer retorno econômico aos agricultores. “Sem perspectivas de retorno, produtores têm menos incentivos e recursos para investir em práticas que exigem planejamento e podem levar tempo para gerar resultados”, explica Gomes. 

O Arapyaú pretende levar seus aprendizados no cacau para outras cadeias, como as do açaí e da mandioca, com o cuidado de não replicar um modelo, mas de considerar as características de cada território e produto. O ponto de partida é identificar empresas interessadas nessas cadeias e produtos e reunir os demais atores necessários para viabilizar mudanças.

Isso inclui produtores, cooperativas, organizações da sociedade civil, pesquisadores e poder público. Enquanto as empresas podem indicar demandas e assumir compromissos de compra, organizações de produtores ajudam a estruturar a oferta, e instituições de pesquisa e agentes públicos podem contribuir para superar entraves técnicos e institucionais.

A proposta do instituto não é concentrar o desenvolvimento de uma cadeia em uma única empresa, mas criar condições para que diferentes participantes invistam e obtenham resultados. Para isso, é necessário compreender os gargalos de cada setor e definir iniciativas que respondam tanto às exigências comerciais quanto às necessidades de quem produz.

A participação empresarial também precisa ir além do interesse em sustentabilidade. A mudança depende de decisões concretas de compra, investimento e planejamento que deem previsibilidade aos produtores e permitam incorporar práticas regenerativas à atividade econômica.

Para Vinicius Ahmar, o avanço da agricultura regenerativa depende de aproximar a lógica empresarial dos objetivos socioambientais. “O mercado traz um olhar de negócios, um olhar de efetividade. Hoje, a gente traz um olhar de impacto, de permear os resultados pela cadeia. E juntos a gente consegue constituir um ambiente bem mais próspero, escalável.”