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Ciência e política: porque a conexão entre os dois é boa para o planeta

Encontro foi organizado por Arapyaú, Instituto Clima e Sociedade e Uma Concertação pela Amazônia. Crédito: acervo Arapyaú

A transição energética, com a eliminação progressiva do gás, do carvão e do petróleo, não será suficiente para controlar a crise climática. Para evitar o aumento de 1,5ºC na temperatura do planeta, limite estabelecido pelo Acordo de Paris, será preciso uma visão mais abrangente que inclua também o investimento na natureza. Essa perspectiva científica da transição deveria influenciar políticos e tomadores de decisão, reforçando ainda mais a necessidade de liderança do Brasil na COP30, que acontece no próximo ano, em Belém.

Essa foi uma das principais mensagens do debate entre a secretária nacional de Mudança do Clima, Ana Toni, o embaixador André Corrêa do Lago e o cientista Johan Rockström, no dia 24 de setembro, durante a Climate Week de Nova York. Os três participaram do encontro Climate Politics and Climate Science, organizado pelo Instituto Arapyaú, o Instituto Clima e Sociedade (iCS), a rede Uma Concertação pela Amazônia e a Universidade de Nova York (NYU-Wagner e NYU-CLACS).

Ana Toni é secretária nacional de mudança do clima
André Côrrea do Lago é embaixador e secretário de clima, energia e meio ambiente
Johan Rockström é cientista e integrante do Planetary Guardians

De acordo com Rockström, nos próximos cinco a 10 anos, mesmo que as medidas de mitigação da mudança climática sejam adotadas, a Terra provavelmente superará o aumento de 1,5ºC e, para voltar a ele, é preciso investir na natureza e focar, não apenas no clima, mas na biodiversidade, na água doce e na terra. “Todos eles estão ligados às funções essenciais da Amazônia. Por isso, a liderança global do Brasil frente à COP30 é tão importante”, afirma o cientista.

Ana Toni considera que a conferência do clima de Belém deveria ser também a “COP da ciência”, com uma agenda de ação. O Brasil se diferencia por produzir uma ciência tropical, com um conhecimento voltado para o uso da terra e da agricultura, por exemplo, que outros países não têm. “Contamos com muito bons cientistas, e a COP30 é uma oportunidade de mostrar a ciência que queremos e precisamos. Assim, poderemos fortalecer outros países do sul global”, diz ela.

Se o mundo dos negócios já tem se dedicado às oportunidades que as atuais circunstâncias trazem, é hora de fazer o mesmo na política, na avaliação de Corrêa do Lago. “As COPs são discussões entre países, mas a ciência é o elemento que pode unir governos, sociedade civil e negócios. Ela pode trazer um senso de oportunidade”, acredita. “Precisamos ajustar a mensagem para reduzir o medo e a angústia. Para aqueles que estão em negação sobre a crise climática, uma perspectiva muito assustadora da ciência pode levar à inércia.”

Para os painelistas, o caminho para a COP30 é traçado a partir da conexão entre ciência e política. Crédito: acervo Arapyaú

Os três painelistas concordam que, apesar do negacionismo crescente e da Era da pós-verdade, a humanidade vive o momento propício para criar “minorias suficientemente grandes”, alianças de pessoas dispostas – nos negócios, na política e entre países – a derrubar a inércia entre as forças negativas da maioria. “Sabemos qual é o caminho para a vitória nessa batalha, para chegar a um futuro descarbonizado e sustentável, um futuro mais moderno e competitivo. Ainda estamos falhando, mas, com a força dessa minoria organizada, podemos chegar lá”, afirma Rockström. “É assim que Davi pode vencer Golias”. 

Giulie Carvalho

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