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Notas Amazônicas discute as diferentes infâncias nas Amazônias

Arte: Rakel Caminha

Uma conversa inspiradora entre mulheres para traçar caminhos que superem os desafios sociais, econômicos e ambientais vividos por crianças e adolescentes da região amazônica marcou o webinar “Infâncias nas Amazônias”, realizado pela rede Uma Concertação pela Amazônia em parceria com a Revista Página22. O evento online ocorreu no dia 27 de setembro e é o terceiro da série Notas Amazônicas, que tem promovido debates ao longo de 2023 com o objetivo de identificar saídas para o desenvolvimento sustentável da região.

Fernanda Rennó e Lívia Pagotto, que dividem a secretaria-executiva de Uma Concertação pela Amazônia, foram as responsáveis por mediar o evento. As painelistas foram Carol Velho, especialista em Educação Infantil do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil; Léia do Vale, coordenadora para Assuntos Indígenas do Unicef no Brasil; Paula Mendonça, coordenadora das áreas de Cidade e Educação do programa Criança e Natureza do Instituto Alana, Daniela Silva, idealizadora do projeto Aldeias; e Watatakalu Yawalapiti, ativista indígena, artesã e coordenadora do movimento Mulheres do Território Indígena do Xingu.

O webinar levantou alguns questionamentos urgentes, entre eles como a crise socioambiental pode afetar as crianças e como podemos evitar que elas sejam as mais atingidas. “Nossa série Notas Amazônicas está discutindo temas que são importantes para a nossa rede e, em especial, aproximando as realidades das várias Amazônias, como gostamos de dizer, em suas diversas localidades. Debatemos a infância em suas dimensões e ambientes, ou seja, como elas se manifestam e acontecem nas cidades, nas reservas indígenas, nas comunidades tradicionais, nas áreas rurais e outras paisagens possíveis que podemos visualizar, mostrando essa relação das crianças com a natureza nesses diferentes territórios”, explicou Lívia Pagotto.

Carol Velho, do Unicef, trouxe números alarmantes sobre as múltiplas dimensões da pobreza na infância e na adolescência no Brasil, apresentando o resumo de um estudo inédito sobre as privações que as afetam no país e os desafios atuais. Entre eles, está o agravamento da insegurança alimentar e da pobreza extrema, além da piora da alfabetização e as persistentes desigualdades raciais e regionais. A pobreza multidimensional refere-se não só a uma privação de renda, mas também ao acesso a direitos básicos como educação, saneamento, água, alimentação, proteção contra o trabalho infantil, moradia e informação.

“O estudo mostra que mais de 60% da população de até 17 anos vive na pobreza no Brasil. Temos 20,6 milhões de crianças de 0 a 6 anos na primeira infância e 1 em cada 3 está em situação de pobreza ou extrema pobreza. Com relação aos indígenas, contamos 8 a cada 10 crianças ianomâmis com quadro de desnutrição crônica e vemos que a pobreza multidimensional impacta mais as crianças do Norte e do Nordeste”

Carol Velho, especialista em Educação Infantil do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil

Com o estudo, o Unicef quer contribuir com os governos e tomadores de decisão em todos os níveis para o enfrentamento dessa pobreza multidimensional que atinge as crianças.

Outro ponto discutido no webinar foi a importância de um olhar cuidadoso e plural para a primeira infância, que se estende até os seis anos da criança. Para as participantes, é imprescindível dar espaço para que elas vivam experiências, descobertas e recebam afeto, respeitando suas especificidades. “Quando falamos de povos indígenas, estamos falando de mais de 300 etnias e mais de 250 línguas faladas no Brasil. Queremos que a primeira infância seja cuidada, de fato, na sua complexidade, e de forma completa, desde o ventre da mãe aos seis anos de idade. Concentrar cuidados, dando amor e carinho, fará com que tenhamos crianças em seu máximo potencial, para que se tornem adultos saudáveis e equilibrados”, afirmou Leia do Vale, que é originária do povo Wapichana.

Para as painelistas, enxergar essas diferenças é a chave para a construção de um contexto do bem-viver das crianças e, assim, contribuir na discussão, na elaboração e na implementação de políticas públicas por governantes e sociedade civil.

“Todas as falas foram muito emocionantes, principalmente por estarmos entre várias mulheres, algumas mães, com uma preocupação muito forte com relação à infância. Acredito que esse tenha sido o primeiro webinar sobre o assunto, em breve iremos organizar outros para que essas falas tenham uma continuidade. Fica muito claro o quanto a infância pode nos ajudar no que necessariamente não é racional. Tentamos trazer sempre na Concertação um pouco de sensibilidade, mas a criança nos abre uma porta muito interessante para quebrar os estereótipos e nos ajudar a enxergar com mais leveza o que pode ser feito”, finalizou Fernanda Rennó.

Fernanda Carpegiani

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