O cacau brasileiro e seu potencial para impulsionar a bioeconomia ganharam projeção internacional durante a Cocoa Week 2026, realizada em Amsterdã, no final de fevereiro, um dos principais encontros globais da cadeia do chocolate. No evento, o Instituto Arapyaú apresentou duas publicações que reúnem evidências científicas e análises econômicas sobre a produção de cacau no Brasil, reforçando o papel do país como referência em modelos produtivos que combinam geração de renda, conservação de florestas e sustentabilidade.
Os estudos destacam que o Brasil reúne condições únicas para ampliar sua participação no mercado global do cacau a partir de sistemas produtivos baseados em agroflorestas — uma abordagem alinhada às demandas internacionais por cadeias agrícolas mais responsáveis do ponto de vista climático, ambiental e social.
O cacau brasileiro é lucrativo…
Uma das publicações apresentadas foi a Viabilidade econômica de Sistemas Agroflorestais com Cacau – Modelagens na Amazônia (Pará) e na Mata Atlântica (Bahia), desenvolvido em parceria com o CocoaAction Brasil.
A pesquisa analisa a viabilidade econômica de modelos produtivos que combinam o cultivo do cacau com outras culturas agrícolas e espécies florestais. Ao todo, foram avaliados onze sistemas agroflorestais — sete na Bahia e quatro no Pará — representando diferentes arranjos produtivos.
Os resultados indicam que todos os cenários analisados apresentam desempenho financeiro positivo. Os sistemas avaliados registraram Taxa Interna de Retorno (TIR) superior à taxa de desconto, Valor Presente Líquido (VPL) positivo e geração média de renda favorável, demonstrando que a produção de cacau em sistemas agroflorestais pode ser economicamente viável.
Lançado originalmente em 2021, o estudo foi atualizado para refletir as transformações na cadeia do cacau. Entre elas estão a volatilidade dos preços internacionais, o aumento dos custos de produção, as novas exigências regulatórias no comércio global e a crescente demanda por financiamento rural.
Segundo Vinicius Ahmar, diretor programático do Arapyaú, a atualização da publicação tem como objetivo ampliar a segurança para investidores e formuladores de políticas públicas. “O estudo amplia a previsibilidade econômica dos sistemas agroflorestais e oferece subsídios concretos para que instituições financeiras e gestores públicos possam desenvolver instrumentos de financiamento e políticas mais adequadas ao setor”, explica.
O trabalho também aborda como os sistemas agroflorestais com cacau estão alinhados a agendas globais que vêm ganhando importância no comércio internacional, como a rastreabilidade das cadeias produtivas, a conservação da biodiversidade e a produção livre de desmatamento. Nesse contexto, a pesquisa destaca a compatibilidade desses sistemas com o Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que estabelece novas exigências para a entrada de commodities agrícolas no mercado europeu.
Apesar do potencial identificado, o estudo também aponta desafios para a expansão desses modelos produtivos. Entre eles estão a oferta ainda limitada de mudas e insumos, a escassez de crédito rural e a baixa cobertura de assistência técnica especializada. O documento indica que a articulação entre financiamento e assistência técnica será fundamental para ampliar a adoção dos sistemas agroflorestais no país.
A pesquisa reúne dados públicos, informações de campo e contribuições de diversas instituições ligadas à cadeia do cacau, incluindo centros de pesquisa, universidades, organizações da sociedade civil e empresas do setor.
… e estratégico
O instituto também apresentou o relatório State of the Art on Cocoa Production in Brazil, que reúne evidências científicas e análises setoriais para traçar um panorama atualizado da produção de cacau no país. O documento destaca que o Brasil possui mais de 270 anos de tradição no cultivo do fruto, além de uma diversidade de sistemas produtivos e condições ecológicas favoráveis à produção sustentável.
Entre os principais diferenciais do cacau brasileiro está a forte presença de sistemas agroflorestais. Em regiões como o sul da Bahia, o cultivo ocorre tradicionalmente no sistema de cabruca, em que os cacaueiros são plantados sob a sombra da vegetação nativa. Esse modelo forma paisagens produtivas que conciliam agricultura, conservação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos, além de contribuir para a resiliência climática das lavouras.
Apesar da queda na participação global, atualmente o Brasil responde por cerca de 4,4% da produção global e ocupa o sexto lugar no ranking internacional, o relatório destaca que o país mantém uma característica singular: é um dos poucos grandes produtores que reúne infraestrutura completa ao longo de toda a cadeia do cacau, desde a produção de mudas e o cultivo até o processamento industrial e a fabricação de chocolate.
Ricardo Gomes, diretor programático do Instituto Arapyaú, pontua que levar essas evidências ao principal encontro global da cadeia do cacau foi uma forma de reforçar o papel do Brasil na agenda internacional da bioeconomia.
“A Cocoa Week foi uma oportunidade de levar a bioeconomia brasileira, por meio da cacauicultura, para a Europa e para o mundo. Isso fortalece a imagem do cacau brasileiro não apenas em relação à qualidade, mas também no compromisso de produzir de maneira sustentável, conservando florestas e valorizando pessoas”, afirma.