Ao longo dos anos, o programa de fellows do Instituto Arapyaú tem reunido especialistas de diferentes trajetórias para refletir sobre questões estratégicas para o desenvolvimento do Brasil. Para Izabella Teixeira, fellow do instituto, um dos diferenciais da iniciativa está justamente na capacidade de antecipar debates, combinar diferentes perspectivas e produzir conhecimento conectado às transformações do país e do mundo.
Ex-ministra do Meio Ambiente e uma das principais vozes brasileiras nas agendas de clima e natureza, Izabella defende que o momento atual exige ir além das abordagens tradicionais. Em um cenário marcado por mudanças na ordem internacional, tensões geopolíticas e uma economia em transformação, ela argumenta que a agenda climática deve ser incorporada às escolhas de desenvolvimento do Brasil — considerando agricultura, energia, florestas, biodiversidade, infraestrutura, inovação e uso da terra de maneira integrada.
Nesta entrevista, Izabella faz um balanço de sua trajetória como fellow, analisa as prioridades para o novo ciclo do programa e discute como a filantropia pode contribuir para transformar conhecimento e experiências bem-sucedidas em soluções capazes de ganhar escala.

Olhando para os diferentes ciclos do programa de fellows, quais foram os principais aprendizados até aqui?
Acho que a primeira coisa a ressaltar é o caráter inovador do programa. Desde o início, houve uma visão de Brasil e da inserção do Brasil no mundo a partir das prioridades do instituto, olhando para as florestas, o desenvolvimento sustentável e temas emergentes, como a bioeconomia. O programa também trouxe uma perspectiva estratégica sobre as mudanças da agenda ambiental e da agenda climática.
Outro aspecto importante é a diversidade de atores e gerações. Tivemos pessoas com trajetórias no Estado, na sociedade civil, no setor privado, representantes de novas gerações e diferentes olhares sobre a Amazônia, a agricultura e o uso da terra. Isso permite produzir conhecimento de maneira contemporânea, olhando para temas que estão na fronteira do debate global e que o Brasil precisa discutir. Muitos assuntos que estavam sendo tratados pelo programa três ou quatro anos atrás estão hoje no centro da agenda.
Pensando no Brasil de hoje, quais deveriam ser as prioridades desse novo ciclo?
O Brasil passou pela presidência do G20, do BRICS e da COP30 e agora precisa pensar no dia seguinte: como lidar com esse novo contexto e transformar essa exposição internacional em escolhas para o país. A discussão climática continua central, mas não pode se restringir ao cumprimento das NDCs. Precisamos discutir governança climática e, principalmente, como conectar essa agenda ao desenvolvimento.
O Brasil tem alternativas que poucos países têm. Somos uma potência agrícola e definimos para o mundo um modelo de agricultura tropical. Temos recursos naturais, biodiversidade, energia renovável e capacidade tecnológica. Mas precisamos compreender quais escolhas queremos fazer, quais são nossas vulnerabilidades e quais parcerias estratégicas serão necessárias. O risco climático passa a ser uma variável estratégica para o desenvolvimento e para a segurança do país.
Você costuma defender que o Brasil precisa sair das “bolhas” da agenda ambiental e climática. O que isso significa?
Significa ampliar a interlocução política. As propostas climáticas do Brasil precisam dialogar com a transformação da economia, dos estilos de vida e dos modelos de negócio. E essas transformações levam tempo. Precisamos discutir os trade-offs de maneira pragmática e construir alianças políticas e econômicas capazes de sustentar essa transição.
Não podemos discutir bioeconomia sem discutir infraestrutura e logística, por exemplo. Da mesma forma, precisamos pensar qual é a visão de desenvolvimento regional para a Amazônia e como ela se conecta ao restante do país. As agendas não podem continuar sendo tratadas isoladamente. O desafio é entender como conservação, produção, infraestrutura, inovação e desenvolvimento se relacionam.
Nesse contexto, qual deve ser o papel da filantropia?
A filantropia precisa alocar melhor os recursos para as soluções de que o Brasil precisa. Ela não vai resolver tudo, nem deve criar iniciativas que permaneçam dependentes de recursos filantrópicos durante 15 ou 20 anos. A filantropia pode e deve ser indutora de novas realidades de negócios, geração de emprego e transformação econômica.
Isso significa apoiar iniciativas que consigam mudar uma realidade local, reorganizar atores em torno de atividades econômicas e criar condições para que outros recursos entrem. É preciso combinar impacto social, geração de renda, agregação de valor e modelos de negócio capazes de se sustentar.
Quais temas devem ganhar espaço no Programa de Fellows nos próximos anos?
Acho que precisamos trabalhar com um horizonte de quatro anos e olhar para as transformações pelas quais o Brasil deve passar, para a visão estratégica do país e para os modelos de negócio que podem derivar disso. A ideia de que vamos resolver os problemas apenas com doações internacionais está superada. Precisamos inovar nos modelos de negócios e de crescimento econômico, entendendo a variável climática como uma das alavancas desse processo.
Isso passa pela agricultura, pelo uso da terra, pela restauração florestal, pelos biocombustíveis, pela transição energética, pela segurança alimentar e pelos minerais estratégicos. Também precisamos avançar na valorização da biodiversidade e do capital natural e em mecanismos regulatórios que conectem agendas e aperfeiçoem a relação entre os setores público e privado.
E qual deve ser a contribuição dos fellows para essas discussões?
O programa pode mostrar caminhos, possibilidades e combinações de interesses que ofereçam uma nova visão sobre o papel das florestas, dos setores econômicos e da redução das desigualdades. Precisamos olhar para a realidade dos negócios na escala em que estamos falando e conectá-la a uma estratégia de país e de mundo.
Para mim, isso passa por uma relação mais eficiente entre sociedade, Estado e setor privado. Precisamos de um Estado forte e de um mercado forte, e a filantropia pode ajudar a traduzir e aproximar esses mundos. Os fellows podem contribuir justamente trazendo formulações estratégicas, baseadas em coisas concretas, números e métricas, e ajudando a encontrar convergências entre interesses econômicos e nacionais.
Que Brasil você espera que essas discussões ajudem a construir?
Um Brasil capaz de olhar pragmaticamente para seus desafios e oportunidades e fazer escolhas no presente. Podemos ser mais competitivos e construir soluções que tenham ressonância internacional, mas não podemos confundir potencial com potência. Somos uma potência agrícola; temos o potencial de sermos uma potência climática, mas ainda não somos.
O Programa de Fellows pode contribuir para construir uma agenda afirmativa de transformação, com uma visão pragmática dos desafios e das oportunidades do Brasil e uma relação política mais eficiente entre sociedade, Estado e setor privado. O objetivo deve ser construir um caminho de transformação de longo prazo, sem retrocessos.