
Imagem: acervo pessoal
A trajetória do agrônomo Fernando Sampaio acompanha, de certa forma, as transformações do agronegócio brasileiro nas últimas décadas. Filho também de um agrônomo, ele cresceu vendo de perto a expansão das fronteiras agrícolas e construiu uma carreira que passa tanto pelo campo quanto pelos bastidores das grandes decisões do setor. Da experiência na Europa, em meio à crise da vaca louca, ao retorno ao Brasil em um momento de pressão crescente sobre a cadeia da carne, ele foi, aos poucos, migrando de uma atuação mais técnica para um papel de articulação.
Esse caminho o levou a ocupar posições-chave em iniciativas que buscam justamente equilibrar produção e sustentabilidade — da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável à Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), passando pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e pela Estratégia PCI – Produzir, Conservar, Incluir, no Mato Grosso. Agora, como fellow do Instituto Arapyaú, Sampaio se volta a um desafio que atravessa toda a sua trajetória: como fazer com que desenvolvimento econômico e conservação ambiental deixem de ser vistos como opostos e passem, de fato, a caminhar juntos.
Que possibilidades de troca você vê nessa experiência como fellow do Arapyaú? Quais são as suas expectativas?
Vejo como uma oportunidade de contribuir com grandes desafios globais, como a crise climática e a segurança alimentar, temas nos quais o Brasil pode ter um papel central. A expectativa é ajudar a destravar a transição para uma agricultura de baixo carbono e pensar formas de conciliar produção agropecuária com conservação. Em especial na Amazônia, um dos territórios de atuação do Arapyaú, onde a pecuária tem um peso gigantesco na ocupação da terra. Justamente por isso, é importante entendê-la como parte da solução. Acredito que posso ajudar nessa interface entre agropecuária e floresta.
Quais são hoje os principais gargalos para o avanço da agricultura de baixo carbono no Brasil?
A questão fundiária na Amazônia, por exemplo, é um impeditivo enorme. A regularização fundiária e ambiental são gargalos estruturais centrais. Tem também um problema de dados: o Brasil produz muita informação, mas ela é pouco integrada, pouco usada. E, para mim, outro ponto muito crítico é a combinação de investimento com assistência técnica. O recurso, às vezes, até existe, mas não chega onde precisa. E, quando chega, o produtor muitas vezes não tem o apoio necessário para implementar.
Como você avalia a cooperação entre setor público, privado e sociedade civil nessa agenda?
A primeira coisa é entender que ninguém resolve isso sozinho. Nem governo, nem setor privado, nem sociedade civil. Acho que esse é o grande poder das redes que o Arapyaú fomenta: a conexão entre diferentes atores para buscar soluções em conjunto. Agora, para que essa cooperação aconteça de fato, tem alguns obstáculos. A polarização política é um deles, sem dúvida. E eu acho que a gente precisa também de espaços mais neutros, que ajudem a construir confiança. Um caminho que eu sempre defendi é começar pelo que é comum a todos. Tem muita coisa que todo mundo concorda, como combater ilegalidade, melhorar assistência técnica, avançar na regularização. Então vamos começar por aí.
Existe também um desafio de comunicação nessa agenda ambiental?
Existe, e é grande. Em muitas regiões, principalmente na Amazônia, a pauta ambiental é vista como um entrave. Como se fosse uma agenda do “não pode”: não pode isso, não pode aquilo. E isso acaba sendo associado à ideia de falta de desenvolvimento. A gente precisa mudar essa narrativa e mostrar que existe um outro modelo possível, que gera renda, emprego, desenvolvimento, só que a partir de outras bases, como a bioeconomia, o manejo florestal, o carbono.
O Instituto Arapyaú tem uma longa história de fomento à cacauicultura sustentável e tem expandido o olhar para outros sistemas agroalimentares. Como é possível aumentar a escala desta e de outras cadeias produtivas?
Em pequenas propriedades, há experiências de áreas de pecuária sendo restauradas com cacau, gerando praticamente o dobro de renda. Cria-se uma oportunidade de o produtor diversificar sua produção com um produto que vai chegar nos grandes traders, como as marcas de chocolate. É uma economia florestal que poderia estar sendo fomentada em muitas outras áreas da Amazônia que estão ocupadas com pecuária de baixíssima produtividade.
No fim do dia, é mercado. É a demanda que vai puxar essas cadeias. O Brasil tem oportunidades claras, porque importa cacau. Então existe espaço para crescer.
Há outros fatores, além do mercado, que são fundamentais no fomento dessa economia florestal?
É preciso lembrar que o produtor de cacau em sistema agroflorestal vai enfrentar a concorrência de um cacau que está plantado a pleno sol. A mesma coisa acontece com o seringueiro do Acre que tem que entrar na floresta para tirar látex, enquanto a Malásia tem seringais industriais. São riscos. Precisamos pensar em alternativas e, ao mesmo tempo, investir em patrimônio genético, pesquisa e inovação. Nossa agricultura é forte porque, em 1973, foi criada a Embrapa para desenvolver a agricultura tropical. O Brasil ainda está muito aquém do seu potencial na economia florestal porque falta infraestrutura pública e privada de pesquisa para descobrir quais espécies têm potencial e como melhorá-las.
Você é pragmático sobre a possibilidade de conciliar produção e conservação.
O Brasil não precisa de desmatamento nenhum para produzir mais alimentos. Existe uma área gigantesca subaproveitada, na qual cabe toda demanda futura, seja do mercado internacional ou do mercado doméstico. Agora, a questão é: como é que a gente faz isso acontecer?
Para mim, passa muito por organizar a base, e aí entra a questão fundiária. Você tem terras públicas, terras de posse comunitária — territórios indígenas, quilombolas — e terras privadas. Em todas elas, há áreas com vegetação protegida e outras não. No caso das áreas privadas, por exemplo, existe uma parte que precisa ser mantida, outra que precisa ser restaurada e outra que pode ser utilizada.
Como criar incentivos para que o dono daquela terra queira manter a floresta em pé?
Aí entra um leque de soluções: pagamento por serviços ambientais, mercado de carbono, bioeconomia, manejo florestal. Ou seja, é gerar valor para a floresta em pé. Já nas áreas públicas, o desafio é outro: você tem cerca de 60 milhões de hectares na Amazônia que ainda não foram destinados, e é justamente onde a grilagem acontece. Então, é preciso decidir o que essas áreas vão ser e dar esse direcionamento.
No fim, a gente precisa de planejamento e de estratégia. E, ao mesmo tempo, de políticas que incentivem a agricultura a crescer sobre áreas já ocupadas e desmatadas, e não avançar sobre a floresta. Se for mais vantajoso recuperar uma área degradada do que abrir uma nova, isso acontece. Mas isso não se resolve sozinho, precisa ser uma construção coletiva, com governo, setor privado e sociedade civil sentados na mesma mesa.
Sua trajetória é marcada justamente pelo diálogo com atores de diferentes interesses e, muitas vezes, opostos. O que faz esse tipo de articulação funcionar?
Acho realmente que é começar pelo que une. Se você junta todo mundo, vai ter um monte de divergência, claro. Mas também tem muita coisa que todo mundo concorda. Então vamos resolver primeiro o que já é consenso. Isso ajuda a construir confiança para avançar depois nos temas mais difíceis. E também é importante identificar lideranças que estejam dispostas a dialogar, isso faz muita diferença.
As redes têm um papel central, porque ajudam a juntar essas diferentes perspectivas. Muitas vezes, o próprio governo funciona em “caixinhas”, então as redes ajudam a conectar esses pontos. E, mais do que isso, ajudam a construir uma visão comum, que é o que a gente precisa para avançar em escala.