A apresentação do estudo O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global durante a Semana do Clima de Nova York, colocou as florestas brasileiras no centro da discussão sobre a implementação da agenda climática. Realizado em 24 de setembro, o encontro teve representantes do setor privado, da sociedade civil e da presidência da COP30 para discutir como conservação, restauração, florestas plantadas e produção de alimentos podem se conectar a uma estratégia de desenvolvimento para o país.
A conversa reuniu Roberto Waack, presidente do Conselho do Arapyaú; Marco Túlio Scarpelli, coordenador da equipe de redação do Mapa do Caminho da Presidência da COP30 para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal; Marcelo Furtado, head de sustentabilidade do Itaúsa; Thais Ferraz, diretora programática do ISCs; Sinéia do Vale, enviada especial da Cop30 para povos indígenas; Caio Zanardo, diretor de sustentabilidade da Suzano; e André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).
Um dos principais pontos do encontro foi a conexão entre o estudo e o Mapa do Caminho, iniciativa conduzida no âmbito da presidência da COP30. Segundo Waack, a proposta traz uma inovação ao permitir a adesão voluntária de países, sem depender do consenso de todas as nações participantes das negociações climáticas. “Os países que quiserem aderir entram no jogo. Isso é uma inovação importante dentro do que o embaixador chama de agenda de ação ou de implementação”, afirma. Para ele, enquanto as negociações internacionais dependem de consenso, a implementação pode avançar de acordo com as características de cada país, empresa ou setor.
É nesse contexto que o estudo apresenta o conceito de contínuo florestal, que integra diferentes tipologias e funções das florestas brasileiras. A conservação, a restauração e o plantio de espécies nativas e exóticas fazem parte de uma mesma visão, ainda que envolvam diferentes atores e modelos econômicos. Entre as cadeias relacionadas às florestas plantadas estão as indústrias de papel e celulose, madeira e painéis, além de novas conexões com a expansão do etanol de milho, que demanda biomassa para a secagem dos grãos. A restauração, por sua vez, vem atraindo investimentos associados, entre outras frentes, ao mercado de créditos de carbono.
O agronegócio ocupa uma posição estratégica nessa integração. Propriedades rurais podem reunir espaços destinados à restauração ou ao plantio de espécies exóticas em áreas menos adequadas para a produção de grãos ou para a pecuária. Além disso, “o agronegócio é um pilar central nesse jogo, porque ele detém uma área muito grande de conservação, relacionada ao cumprimento do Código Florestal”, como afirma Waack. A conexão entre produção de alimentos, conservação e atividades florestais também amplia as possibilidades de desenvolvimento da bioeconomia.
A discussão em Nova York abordou ainda o potencial de transformar o patrimônio florestal brasileiro em uma classe de ativos capaz de atrair investimentos internacionais. O país combina grandes estoques de carbono, especialmente na Amazônia, com potencial de remoção por meio do plantio de árvores nativas e exóticas. Na avaliação de Waack, a existência do Código Florestal e os avanços na regulamentação do mercado de carbono contribuem para estruturar esse ambiente, embora ainda sejam necessários ajustes. “Levar essa discussão para o âmbito internacional é fundamental para o que a gente chama de consolidar o Brasil como o país que tem no seu capital natural uma classe de ativos”, diz.
Esse potencial, no entanto, depende do enfrentamento de um desafio que permanece central na agenda florestal brasileira: o desmatamento ilegal. Para Waack, a expansão de atividades capazes de gerar renda e desenvolvimento deve caminhar junto com a eliminação da conversão ilegal de vegetação nativa. “Sim, o Brasil tem as soluções, o que está ligado ao mapa do caminho, apresenta soluções, mas ele precisa terminar com o desmatamento ilegal. Esse é um grande desafio que a gente tem”, afirma. A criação de alternativas econômicas associadas às florestas pode, nesse sentido, ampliar as opções de geração de renda e desenvolvimento, especialmente em regiões mais vulneráveis.