
A produção agropecuária pode desempenhar um papel decisivo na expansão das florestas brasileiras nas próximas décadas. É o que mostra a segunda edição do estudo O protagonismo das florestas brasileiras na agenda climática global, produzida por uma coalizão formada por Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação pela Amazônia. A publicação amplia o escopo da análise para todos os biomas terrestres brasileiros e apresenta recomendações para fortalecer políticas públicas e mecanismos de financiamento voltados à agenda florestal.
O estudo mostra que conservação, restauração florestal, silvicultura e produção agropecuária podem avançar de forma articulada, contribuindo para a redução de emissões, a adaptação às mudanças climáticas e a geração de oportunidades econômicas. Com uma visão abrangente das paisagens florestais do país, o documento aponta caminhos para que o Brasil reverta a perda histórica de cobertura vegetal e volte a ampliar suas florestas.
61% do território nacional está coberto por formações florestais e desse percentual 42% estão em áreas privadas, assentamentos rurais ou terras ainda não destinadas.
Segundo os autores, a recuperação dessas áreas gera benefícios para o clima, a biodiversidade e os próprios produtores rurais, que podem regularizar passivos ambientais previstos no Código Florestal e criar novas fontes de renda por meio de créditos de carbono e de cadeias ligadas à economia florestal. Até 2050, de acordo com projeção do WRI, a restauração poderá movimentar US$141 bilhões no Brasil, considerando receitas com carbono, alimentos, biomateriais e bioenergia.
“O Brasil tem uma oportunidade única de mostrar que produção agropecuária, conservação e expansão florestal não são agendas opostas, mas parte da mesma estratégia de desenvolvimento”, afirma Renata Piazzon, CEO do Instituto Arapyaú.
Para Renata, a importância das florestas vai além da mitigação das mudanças climáticas. “Em um mundo cada vez mais impactado por eventos extremos, as florestas são infraestrutura essencial para segurança hídrica, produtividade agrícola, biodiversidade e resiliência econômica. E o agronegócio pode ser um dos principais vetores da transição florestal brasileira.”
A análise está organizada em três frentes — conservação, restauração florestal e silvicultura — e adota o conceito de “contínuo florestal”, utilizado internacionalmente para compreender diferentes formas de uso e manejo das florestas. Nesse modelo coexistem áreas preservadas, manejo sustentável, sistemas de restauração e florestas plantadas com espécies nativas e exóticas voltadas à produção econômica. Segundo o estudo, todas essas modalidades podem gerar benefícios ambientais e econômicos, seja pela preservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, seja pela captura de carbono e pelo abastecimento de cadeias produtivas.
A nova edição recebeu o apoio formal da presidência da COP30 e serviu de subsídio para as contribuições técnicas das organizações ao Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030, elaborado pela presidência brasileira da conferência. Um dos objetivos do documento é contribuir para que a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC) reconheça as florestas como elemento central para a remoção e o armazenamento de carbono.
Adaptação climática
A publicação também destaca a crescente importância das florestas para a adaptação às mudanças climáticas. Se nos últimos anos o debate internacional esteve concentrado na remoção e no armazenamento de carbono, hoje ganha força o reconhecimento desses ecossistemas como fundamentais para a estabilidade dos sistemas produtivos. A regulação do ciclo das chuvas, a proteção dos solos, a conservação da biodiversidade e a redução dos impactos de secas e eventos extremos passaram a ocupar espaço crescente nas estratégias econômicas e climáticas.
Nesse contexto, o estudo argumenta que o valor das florestas não pode ser medido apenas pelo carbono armazenado. Sua contribuição para a segurança hídrica, a produção de alimentos, a geração de energia e a resiliência dos territórios torna esses ecossistemas cada vez mais relevantes para a economia.
O documento também destaca o papel dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na conservação das florestas brasileiras. Dados apresentados mostram que as terras indígenas responderam por apenas 3% do desmatamento registrado na Amazônia entre 2012 e 2024, reforçando a importância desses territórios para a manutenção da cobertura florestal.
Para Beto Veríssimo, cofundador do Imazon e um dos coordenadores do estudo, o Brasil reúne atributos que o colocam em posição de destaque no cenário internacional.
“O Brasil concentra cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, domina tecnologias de conservação, restauração e silvicultura e reúne condições únicas para liderar a agenda global de soluções baseadas na natureza. Nossas florestas armazenam carbono, regulam chuvas, sustentam a produção agrícola, a geração de energia e o abastecimento de água. Quando falamos em clima, segurança alimentar e resiliência econômica, estamos falando diretamente da importância estratégica das florestas brasileiras.”
Financiamento
O estudo também dedica atenção aos desafios relacionados ao financiamento. Os autores defendem a ampliação de instrumentos capazes de atrair investimentos para conservação, restauração e manejo florestal, combinando recursos públicos e privados e mecanismos voltados à redução de riscos para investidores.
“Precisamos fazer com que o capital natural e as soluções baseadas na natureza deixem de ser vistos apenas como uma agenda ambiental e passem a ocupar um lugar central na economia”, afirma Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú. “As florestas brasileiras têm potencial para se consolidar como uma classe de ativos capaz de gerar valor por meio de carbono, água, biodiversidade, segurança alimentar e resiliência climática.”

Lançado durante a Semana da Natureza e do Clima do Rio de Janeiro, o estudo tem contribuído para diálogos nacionais e internacionais e foi apresentado na Conferência de Bonn sobre Mudanças Climáticas, encontro preparatório para a COP30, e também na Semana de Ação Climática de Londres, em eventos com o Brazil Creating Fashion for Tomorrow, Embaixada do Brasil em Londres, World Climate Foundation e o Museu de História Natural de Londres..
Nesses espaços, o Instituto Arapyaú participou de discussões sobre restauração florestal, sistemas alimentares e bioeconomia, levando experiências brasileiras para debates voltados à implementação de soluções, ampliação de escala e promoção do desenvolvimento sustentável.
Ao reunir dados, análises e recomendações, o estudo reforça que a expansão das florestas brasileiras depende da atuação coordenada de diferentes setores. Nesse processo, o agronegócio aparece não apenas como beneficiário dos serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas, mas como um dos principais agentes capazes de impulsionar uma transição que concilie produção, conservação e desenvolvimento econômico.